
Como escrever o seu currículo como desenvolvedor
Um guia completo para estagiários, juniores e plenos com pouca experiência que querem montar um currículo que passa pelo ATS e chama a atenção do recrutador."Alguém aqui tem um template de currículo para me passar?"
Essa é uma pergunta MUITO comum em grupos de tecnologia em que eu participo. Volta e meia alguém pede um modelo pronto, porque não sabe por onde começar.
Muitos recorrem a templates em ferraamentas como Canva, Figma ou PowerPoint. Algumas vezes, isso rende um currículo visualmente bonito, mas que não passa pelo ATS. Em outras, gera um mondrongo mal enjambrado que parece sua cara, que claramente foi montada pela sua mãe sem ler o manual.
Se você chegou aqui, veio em busca de uma luz. Então vamos conversar?
— o software de triagem automática que a maioria das empresas usa para filtrar candidaturas.
Você abre o Google Docs, digita seu nome, e trava.
Fica encarando a tela em branco por vinte minutos. Começa a listar as tecnologias que conhece. Apaga. Começa de novo. Copia o currículo de um amigo como base. Muda o nome. Manda.
Não recebe resposta.
Isso acontece porque a maioria dos desenvolvedores iniciantes nunca aprendeu o que um currículo precisa fazer. E aí erra não por falta de competência, mas por falta de clareza.
Este post cobre cada seção do currículo — o que é, pra que serve, e por que importa fazer do jeito certo. No final, tem um checklist para você revisar antes de enviar.
O que um currículo precisa fazer (e o que ele não é)
Um currículo não é um histórico de vida. Não é uma lista de tudo que você já fez. E definitivamente não é o lugar para mostrar que você sabe usar o Canva.
Um currículo tem um único objetivo: te fazer chegar na entrevista.
Antes de chegar aos olhos de um ser humano, o seu currículo passa por pelo menos três filtros:
-
ATS (Applicant Tracking System): um software que faz triagem automática de candidaturas. Ele não "lê" o currículo como um humano — ele extrai texto e busca palavras-chave. Se o seu arquivo não for legível por máquina, você é descartado antes de qualquer pessoa te ver.
-
Triagem humana rápida: se passar pelo ATS, um recrutador olha o currículo por 6 a 10 segundos. Se não conseguir entender rapidamente quem você é e o que você faz, passa para o próximo.
-
Análise técnica: se sobreviver aos dois primeiros, alguém da área técnica lê com mais atenção para decidir se vale a pena uma entrevista.
Cada decisão de formato e conteúdo precisa levar esses três filtros em conta.
Formato e ferramentas (antes de escrever qualquer coisa)
Antes de digitar uma palavra, defina o formato. Um currículo mal formatado mata a candidatura antes de ser lido.
Use PDF simples
Evite templates do Canva, Figma ou PowerPoint. Eles geram PDFs com elementos gráficos que o ATS não consegue processar — o resultado é texto embaralhado ou campos em branco no sistema do recrutador.
Use Google Docs ou Microsoft Word e exporte como PDF. Layout em coluna única, fonte legível (Arial, Calibri, ou similar), tamanho 10–12pt.
Tamanho: 1 página (no máximo 2)
Para quem tem menos de 2 anos de experiência: 1 página. Não force 2 páginas com fonte pequena e margens minúsculas. Um currículo de 1 página bem escrito comunica mais do que 2 páginas com texto irrelevante.
Nome do arquivo
curriculo-seu-nome.pdf
Não curriculo-final-v3-ESSE.pdf. O nome do arquivo é a primeira coisa que o recrutador vê ao baixar. Profissionalismo começa aí.
Idioma
Em português para vagas nacionais. Em inglês para vagas internacionais ou empresas com processo seletivo em inglês. Nunca misture idiomas no mesmo documento.
Cabeçalho: quem você é e como te acham
O cabeçalho fica no topo da página e contém suas informações de contato. Parece simples, mas tem armadilhas.
O que incluir
- Nome completo — em destaque, maior que o resto do texto
- Email profissional —
josenaldo.matos@gmail.com, nãogato_destruidor1998@hotmail.com - Telefone com DDD — preferencialmente WhatsApp
- LinkedIn — com URL personalizada (não a URL padrão com números aleatórios)
- GitHub — se tiver projetos relevantes, e deve ter
- Cidade e estado — só isso; endereço completo não é necessário
- Site ou portfólio — se tiver
O que não incluir
- CPF, RG, data de nascimento, estado civil, religião
- Foto (em vagas de tecnologia no Brasil, geralmente não é necessária e pode gerar viés)
- Duas cidades ao mesmo tempo ("São Paulo / Remoto")
Por que o LinkedIn e o GitHub importam tanto
O email e o telefone são para o recrutador te contatar. O LinkedIn e o GitHub são para ele te avaliar antes de te contatar.
Um GitHub sem projetos — ou com projetos sem README — não ajuda. Um LinkedIn desatualizado ou sem foto profissional prejudica. Se esses perfis não estão em ordem, arrume-os antes de começar a enviar o currículo.
Sumário profissional: o trailer do seu currículo
O sumário fica logo após o cabeçalho e é o primeiro texto que o recrutador lê. Ele tem entre 3 e 5 linhas e precisa responder uma única pergunta: quem é essa pessoa e por que devo continuar lendo?
Pense no sumário como o trailer de um filme. Ele não conta tudo — ele desperta interesse suficiente para o recrutador querer mais detalhes.
O que vai no sumário
- Quem você é (área e nível)
- Em que setores ou contextos já trabalhou (ou estudou e praticou, para iniciantes)
- Suas principais habilidades, de forma objetiva
- Uma ou duas conquistas ou diferenciais concretos
Exemplo para quem tem alguma experiência
Desenvolvedor back-end com experiência em APIs REST e integração de sistemas, com passagem por projetos de e-commerce e fintech. Trabalho principalmente com Java e Spring Boot. Nos últimos 12 meses, participei da migração de um módulo monolítico para microsserviços, o que reduziu o tempo de deploy de 40 minutos para menos de 5.
Exemplo para quem está no início
Desenvolvedor front-end cursando Análise de Sistemas, com projetos pessoais em React e TypeScript publicados em produção. Tenho foco em acessibilidade e performance de interface. Busco um time onde possa contribuir com código real e crescer com feedback de desenvolvedores mais experientes.
O que evitar
- Clichês sem evidência: "sou comunicativo, proativo e trabalho bem em equipe" — todo mundo diz isso, ninguém prova
- Texto maior que 5 linhas — se ficou grande, está detalhado demais
- Repetir palavra por palavra o que já está nas outras seções
Por que o sumário substituiu o objetivo profissional
O objetivo profissional era útil em outro contexto: quando você levava o currículo pessoalmente a uma empresa e o deixava na portaria junto com dezenas de outros. O objetivo servia para separar fisicamente os currículos por área.
Hoje, você entrega o currículo por email ou plataforma, direcionado a uma vaga específica. O objetivo já está implícito — você está aplicando para aquela vaga, não para outra. Deixar um "Objetivo: Conquistar uma oportunidade de crescimento profissional" no topo do documento é ruído. O sumário, ao contrário, acrescenta contexto real e desperta interesse.
Experiência profissional: o que você fez e o impacto que gerou
Esta seção lista suas experiências de trabalho em ordem cronológica inversa — a mais recente primeiro.
Estrutura de cada experiência
Cargo | Empresa | Mês/Ano – Mês/Ano (ou Atual)
• Bullet de realização 1
• Bullet de realização 2
• Bullet de realização 3
A diferença entre responsabilidade e realização
Este é o erro mais comum. A maioria das pessoas lista responsabilidades. O que o recrutador quer ver são realizações.
Responsabilidade (não faça isso):
"Responsável pelo desenvolvimento de APIs REST para o sistema de pagamento."
Realização (faça assim):
"Desenvolvi 3 endpoints REST em Node.js para integração com gateway de pagamento, eliminando um processo manual que tomava 2 horas por dia da equipe de operações."
A fórmula é simples: fiz [o quê], usando [como], e o resultado foi [o quê]. Nem sempre você vai ter um número exato — mas sempre vai ter um contexto de por que aquilo importou.
Para quem tem pouca ou nenhuma experiência formal
Inclua:
- Estágios, mesmo que curtos
- Trabalho voluntário relacionado à tecnologia
- Freelances ou projetos pagos, mesmo que informais
Se não tiver nada disso, não invente. Pule esta seção e fortaleça a de Projetos. Um currículo com projetos sólidos e sem experiência formal é honesto e funciona. Um currículo com experiências fabricadas explode na primeira pergunta da entrevista.
Projetos pessoais: a prova mais tangível que um iniciante tem
Para quem está começando, esta seção muitas vezes vale mais do que a de experiência profissional. É onde você demonstra que sabe fazer, não apenas que sabe falar sobre fazer.
Estrutura de cada projeto
Nome do Projeto | github.com/seu-usuario/projeto | link do deploy (se tiver)
O problema que o projeto resolve (1 linha)
• Tecnologias usadas
• Desafio técnico que você enfrentou e como resolveu
• Status: Em produção / Em desenvolvimento / Concluído
O que conta como projeto
- Projeto de curso onde você foi além do exercício básico
- Clone de aplicativo com funcionalidade que você adicionou
- Ferramenta que resolve um problema real seu ou de alguém
- Contribuição em projeto open source (mesmo que pequena)
O que não conta
- Repositório vazio ou com apenas um commit de "initial commit"
- Projeto copiado sem nenhuma modificação
- Repositório sem README — se não tem README, não existe para o recrutador
A regra do README
Cada projeto no currículo precisa ter um README que responda: o que é, pra que serve, como rodar. Sem isso, você está pedindo para o recrutador confiar na sua palavra. Com isso, você dá a ele evidência.
Formação acadêmica: contexto educacional, não vitrine
Esta seção informa sua trajetória de educação formal. Ela importa, mas raramente é o fator decisivo em tech.
Estrutura
Curso | Instituição | Ano de conclusão (ou Previsão: Mês/Ano)
O que incluir
- Ensino superior concluído ou em andamento
- Cursos técnicos (ETEC, SENAI e equivalentes)
- Bootcamps intensivos com carga horária significativa e reputação reconhecida
O que não incluir
- Ensino médio regular (a menos que seja técnico)
- Cursos de poucas horas — esses vão na seção de Cursos e Certificações
Posição no currículo
Se você está estudando ou recém-formado e tem pouca experiência profissional, coloque Formação logo após o Sumário — é seu principal contexto. Se já tem experiência relevante na área, Formação vai depois de Experiência e Projetos.
Para estudantes
Declare a previsão de conclusão. "Cursando — previsão: dezembro/2026" é mais informativo do que apenas "cursando". Mostra ao recrutador quando você vai poder assumir um contrato efetivo, o que importa para planejamento de equipe.
Cursos e certificações: aprendizado contínuo, não lista de compras
O mercado de tecnologia valoriza quem aprende continuamente. Esta seção demonstra isso — mas precisa ser curada, não despejada.
O que incluir
- Cursos com relevância direta para a vaga (Alura, Rocketseat, DIO, Udemy, Coursera, etc.)
- Certificações reconhecidas pelo mercado (AWS, Google Cloud, Azure, Scrum, etc.)
- Cursos com carga horária significativa — acima de 10 horas, preferencialmente acima de 20
Formato
Nome do Curso | Plataforma | Ano
O que não incluir
- Todos os cursos que você já fez. Todos.
- Cursos sem relação com a vaga
- Certificados de participação em eventos sem conteúdo técnico
Por que menos é mais
Um currículo com 30 linhas de cursos do Udemy passa a impressão de alguém que acumula certificados sem direção. Selecione os mais relevantes para a vaga que você está aplicando. Se a vaga é front-end, não liste o curso de machine learning que você fez por curiosidade.
Habilidades técnicas: palavras-chave para o ATS, contexto para o humano
Esta seção existe por dois motivos: fazer o ATS reconhecer as tecnologias que a vaga exige, e dar ao recrutador uma visão rápida do seu perfil técnico.
Formato recomendado
Organize por categorias:
Linguagens: Python, JavaScript, TypeScript
Front-end: React, Next.js, HTML, CSS
Back-end: Node.js, Express
Banco de dados: PostgreSQL, MySQL, MongoDB
Ferramentas: Git, GitHub, Docker (básico), Linux
Metodologias: Scrum, Kanban
O que não fazer
Barra de progresso de habilidade: aqueles gráficos "React ■■■■□ 80%" parecem visuais, mas o ATS não os lê e o recrutador sabe que são subjetivos. O que significa "80% em React"? Nada mensurável.
Lista sem categorias: jogar 30 nomes de tecnologias num parágrafo dificulta a leitura e não ajuda ninguém.
Listar o que você mal conhece: se você vai travar na primeira pergunta técnica sobre aquela tecnologia, não liste. A entrevista vai expor isso de forma muito mais constrangedora do que omitir no currículo.
Use os mesmos termos da vaga
Se a descrição da vaga diz "React" e você escreveu "ReactJS", pode não bater no ATS. Leia a descrição da vaga e use os mesmos termos. Isso não é desonesto — é comunicação eficaz.
Idiomas: seja honesto, sempre
Esta seção declara seus idiomas e seu nível real em cada um. Em tecnologia, o inglês é praticamente obrigatório — não para conversação fluente no dia a dia, mas porque toda a documentação técnica, os erros de compilador, o Stack Overflow, os artigos relevantes e os issues do GitHub estão em inglês.
Níveis e o que significam na prática
- Básico: reconhece palavras e consegue ler com dificuldade. Não consegue se comunicar
- Intermediário: lê documentação, escreve emails com algum esforço, entende reuniões simples
- Avançado: se comunica com conforto em texto e em conversação, comete erros mas não compromete
- Fluente: comunicação natural sem esforço significativo
- Nativo: idioma materno
Por que a honestidade aqui é inegociável
Declarar "fluente" quando você não é leva a constrangimento imediato na primeira entrevista com alguém que fala inglês. Declarar "básico" quando você lê documentação sem dificuldade é desnecessariamente modesto.
Declare o que você realmente consegue fazer com o idioma.
O que nunca colocar no currículo
Algumas informações são neutras na melhor das hipóteses e prejudiciais na pior.
Clichês sem evidência: "Sou comunicativo, proativo e trabalho bem em equipe." Todo candidato diz isso. Nenhum prova. Se você é proativo, mostre nos bullets de experiência ou nos projetos pessoais.
Pretensão salarial: Deixe para a entrevista. Colocar no currículo pode te eliminar antes de a empresa te conhecer — para cima (parece caro) ou para baixo (você não sabe o que vale).
Referências: "Referências disponíveis mediante solicitação" ocupa espaço e não acrescenta nada. Se pedirem, você fornece na hora. Omita.
Informações pessoais desnecessárias: CPF, RG, estado civil, religião, filiação política. Não pertencem ao currículo de tech.
Erros de português: Um erro de concordância ou de acentuação não elimina sua candidatura sozinho, mas passa uma impressão de descuido. Use o corretor do editor. Peça para alguém ler antes de enviar. Use o LanguageTool ou similar.
Currículo genérico para todas as vagas: Enviar o mesmo currículo sem adaptação para todas as vagas é o equivalente a mandar uma mensagem de texto em massa para todo o seu WhatsApp. O recrutador percebe. Adapte o sumário, ajuste as habilidades em destaque, e ajuste os termos da seção técnica para cada candidatura.
Checklist final
Antes de enviar, passe por esta lista:
- Nome profissional e email profissional no cabeçalho
- LinkedIn com URL personalizada e perfil atualizado
- GitHub com projetos e READMEs
- Sumário adaptado para esta vaga específica
- Experiências com bullets de realização, não de responsabilidade
- Pelo menos 2 projetos documentados com README
- Habilidades técnicas organizadas por categoria
- Idiomas declarados honestamente
- PDF simples, sem colunas, sem gráficos, sem foto obrigatória
- Sem erros de português
- Uma pessoa leu antes de você enviar
- Nome do arquivo:
curriculo-seu-nome.pdf
Agora vai
Um currículo bom feito hoje vale mais do que um currículo perfeito que você vai fazer quando tiver mais experiência.
Você não precisa de 5 anos de carreira para ter um currículo decente. Precisa de clareza sobre o que você fez, honestidade sobre o que você sabe, e cuidado com os detalhes que a maioria ignora.
Monta. Revisa com este checklist. Pede para alguém ler. Manda.
E enquanto espera: continue construindo projetos, contribuindo em público, e cultivando sua presença no mercado — porque o currículo te coloca na fila, mas é a sua reputação que te tira dela. Se quiser entender melhor como funciona essa segunda parte, leia Por que ainda sou invisível no mercado de trabalho?