TL;DR

Compute, object storage, load balancer, fila, banco gerenciado, Kubernetes — os conceitos são os mesmos em qualquer nuvem. O que muda é só o nome do rótulo na caixa. Esta nota é o dicionário: para cada categoria de serviço, os nomes que AWS, Azure, GCP e DigitalOcean dão à mesma ideia — e, honestamente, onde um provedor simplesmente não tem aquela peça.

O problema: você já sabe cloud, só não sabe o sotaque

Imagine que você domina fluentemente “banco de dados relacional gerenciado” — sabe o que é replicação síncrona, failover automático, read replica, backup point-in-time. Você aprendeu isso a fundo estudando o RDS da AWS (veja a nota sobre bancos gerenciados). Agora um recrutador te pergunta: “você já trabalhou com Azure SQL Database?” Você trava — não porque não sabe o conceito, mas porque não sabe que “Azure SQL Database” é RDS com sotaque de Redmond.

Esse é o problema que multi-cloud resolve mal e tradução resolve bem. Trocar de nuvem não é reaprender arquitetura distribuída do zero. É abrir um dicionário. VM continua sendo VM, seja ela chamada de EC2 Instance, Azure Virtual Machine, Compute Engine Instance ou Droplet. O hypervisor por baixo muda, o SLA muda, a UI muda — mas o modelo mental que você construiu estudando Compute I e Compute II atravessa a fronteira inteiro.

Por isso esta nota não ensina nenhum conceito novo — ela pressupõe que você já andou pelo galho principal da trilha (notas 01 a 20) e sabe o que cada categoria de serviço faz. O que ela entrega é a tabela de bolso: você aprendeu o conceito no galho X, e agora, quando precisar falar com um cluster Azure ou um pipeline GCP, traduz o nome em segundos em vez de procurar do zero.

Como usar esta tabela: cada seção abaixo é uma categoria de serviço. A coluna “conceito” linka de volta para a nota da trilha que explica o o quê e o por quê. As colunas AWS/Azure/GCP/DO dão o como se chama aqui. Onde aparece um travessão (), o provedor genuinamente não tem produto equivalente — não é preguiça de pesquisa, é a realidade do catálogo.

Verificado em 2026-07-24

Nomes de produtos cloud mudam com frequência incômoda (a Microsoft já renomeou serviços de Identity três vezes em poucos anos — Azure AD virou Microsoft Entra ID em 2023). Os nomes abaixo foram checados nesta data contra a documentação oficial de cada provedor. Se você está lendo isso meses depois, desconfie e confira a fonte antes de citar em entrevista.

flowchart TD
    A[Conceito de plataforma] --> B[Compute]
    A --> C[Storage e dados]
    A --> D[Rede e borda]
    A --> E[Plataforma de aplicação]
    A --> F[Operação e fundação]

    B --> B1[VM]
    B --> B2[Containers gerenciados]
    B --> B3[Kubernetes]
    B --> B4[Serverless / FaaS]

    C --> C1[Object storage]
    C --> C2[Relacional gerenciado]
    C --> C3[NoSQL gerenciado]
    C --> C4[Cache gerenciado]

    D --> D1[VPC]
    D --> D2[Load balancer]
    D --> D3[DNS]
    D --> D4[CDN]

    E --> E1[Fila / mensageria]
    E --> E2[API Gateway]

    F --> F1[IaC]
    F --> F2[Identidade]
    F --> F3[Observabilidade]

A máquina virtual é o primitivo original de toda nuvem pública — o que a AWS lançou em 2006 com o EC2. Todo provedor tem uma, porque sem isso não existe “nuvem”.

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
VM sob demanda (Compute I)EC2 InstanceAzure Virtual MachineCompute Engine (VM Instance)Droplet
Auto scaling de VMs (Compute II)EC2 Auto Scaling GroupVirtual Machine Scale Set (VMSS)Managed Instance Group (MIG)— (DO não tem auto scaling nativo de Droplets; escala-se App Platform ou usa-se Kubernetes)
VM “sob spot”/preemptívelSpot InstanceSpot Virtual MachineSpot VM / Preemptible VM

Containers gerenciados e Kubernetes

Aqui o mercado convergiu de um jeito raro: Kubernetes venceu como padrão de orquestração, e os quatro provedores oferecem um controle plane gerenciado dele — a maior ilha de portabilidade real da cloud (mais sobre isso na próxima nota do galho, sobre lock-in).

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Kubernetes gerenciado (Containers gerenciados)EKS (Elastic Kubernetes Service)AKS (Azure Kubernetes Service)GKE (Google Kubernetes Engine)DOKS (DigitalOcean Kubernetes)
Container “sem gerenciar cluster” (rodar imagem direto)ECS + Fargate / App RunnerAzure Container Apps / Container InstancesCloud RunApp Platform (Docker deploy)
Registro de imagens de containerECR (Elastic Container Registry)Azure Container RegistryArtifact RegistryContainer Registry (DOCR)

Verificado em 2026-07-24

GKE foi pioneiro (2014/2015) e ainda tem a reputação de operação mais madura de Kubernetes — faz sentido, o Kubernetes nasceu de projeto interno do Google (Borg). Isso é reputação de mercado, não uma medição objetiva desta nota.

Serverless / FaaS

O modelo “function as a service” — pague por invocação, sem servidor visível — nasceu com o AWS Lambda em 2014 e hoje todo provedor grande tem seu clone.

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Function as a Service (Serverless e FaaS)LambdaAzure FunctionsCloud Functions (2ª geração roda sobre Cloud Run)Functions (DigitalOcean Functions, baseado em Apache OpenWhisk)
Orquestração de workflow serverlessStep FunctionsDurable Functions / Logic AppsWorkflows

Plataforma de aplicação (PaaS)

Um degrau acima do FaaS: você entrega código-fonte ou um Dockerfile, a plataforma cuida de build, deploy, TLS e escala. É a categoria onde a DigitalOcean, historicamente focada em VM simples, ganhou competitividade real.

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
PaaS de aplicação (git push → app rodando)App Runner / Elastic BeanstalkAzure App ServiceApp Engine / Cloud RunApp Platform

Storage: object, block, file

Object storage é hoje o denominador comum de toda arquitetura cloud — do backup ao data lake. Foi a AWS que definiu o padrão de fato com o S3, a ponto de “compatível com S3” virar critério de venda para concorrentes.

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Object storage (Armazenamento)S3Azure Blob StorageCloud StorageSpaces Object Storage (API compatível com S3)
Block storage (disco de VM)EBS (Elastic Block Store)Azure Managed DisksPersistent DiskVolumes Block Storage
File storage compartilhado (NFS/SMB)EFS (Elastic File System)Azure FilesFilestoreNetwork File Storage (NFS-based)

Assista: 4 Cloud Giants Compared in One Chart! AWS vs Azure vs GCP vs Oracle

Canal: TheCloudIO | Duração: ~9min | Idioma: EN

Percorre em vídeo o mesmo exercício de tradução desta nota — compute, storage de objeto/bloco/arquivo, Kubernetes gerenciado — categoria por categoria, com os nomes de cada provedor lado a lado (aqui trocando DigitalOcean por Oracle, mas o método de leitura da tabela é idêntico). Trecho de destaque [03:08]: “[S3’s] direct equivalent over on Azure is blob storage. For GCP, it’s just called cloud storage.”

🎬 Assistir no YouTube

Bancos de dados relacionais gerenciados

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Relacional gerenciado (Postgres/MySQL) (Bancos gerenciados)RDSAzure SQL Database / Azure Database for PostgreSQL / MySQLCloud SQLManaged Databases (Postgres, MySQL)
Postgres compatível de alta performance (“cloud-native”)Aurora (Postgres/MySQL compatible)— (não há clone proprietário do Aurora)AlloyDB for PostgreSQL
Data warehouse analíticoRedshiftAzure Synapse AnalyticsBigQuery

NoSQL gerenciado

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Documento/chave-valor gerenciadoDynamoDBCosmos DBFirestoreMongoDB gerenciado (via Managed Databases)
Wide-column em escala massivaKeyspaces (compatível com Cassandra)Cosmos DB (API Cassandra)Bigtable

Cache gerenciado

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Redis/Valkey gerenciadoElastiCacheAzure Cache for RedisMemorystoreManaged Databases (Redis / Valkey)

Rede: VPC, load balancer, DNS, CDN

A camada de rede é onde a filosofia dos quatro mais diverge em complexidade — mesmo cobrindo o mesmo conceito de VPC.

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Rede virtual isolada (VPC)VPCVirtual Network (VNet)VPCVPC
Load balancer L4/L7 (Compute II)ALB / NLBAzure Load Balancer / Application GatewayCloud Load BalancingLoad Balancer
DNS gerenciado (DNS, CDN e borda)Route 53Azure DNSCloud DNSDNS (parte do painel, sem produto separado)
CDN (DNS, CDN e borda)CloudFrontAzure Front Door / Azure CDNCloud CDNCDN embutido no Spaces (não é produto CDN standalone)

Fila e mensageria

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Fila simples (Mensageria e eventos)SQSAzure Queue Storage / Service BusCloud Tasks / Pub/Sub
Pub/sub e streaming de eventosSNS + Kinesis / MSK (Kafka gerenciado)Event Grid + Event HubsPub/Sub— (sem serviço de mensageria gerenciado nativo)

A maior lacuna da DigitalOcean é aqui

Fila e streaming de eventos gerenciados é a categoria onde a DO simplesmente não compete. Se sua arquitetura depende de mensageria assíncrona pesada, você roda seu próprio Kafka/RabbitMQ num Droplet ou DOKS — ou aceita que esse pedaço da arquitetura vive em outro provedor. Isso não é acidente: é o motivo pelo qual a DO nunca tenta ser um substituto 1:1 de AWS/Azure/GCP, e sim uma nuvem para workload mais simples.

API Gateway e edge de aplicação

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
API Gateway gerenciado (API Gateway)API GatewayAzure API ManagementApigee / API Gateway— (App Platform tem roteamento básico, não é API Gateway completo)
WAF (firewall de aplicação web)AWS WAFAzure Web Application FirewallCloud Armor

Infrastructure as Code

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
IaC declarativo nativo do provedor (Infrastructure as Code)CloudFormation / CDKARM Templates / BicepDeployment Manager (legado) / Config Connector— (sem IaC nativo; usa-se Terraform provider oficial)
Terraform provider oficialhashicorp/awshashicorp/azurermhashicorp/googledigitalocean/digitalocean

Terraform é, na prática, o denominador comum das quatro colunas — é por isso que o galho de IaC da trilha usou Terraform como ferramenta neutra em vez do CloudFormation.

Identidade e acesso

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Gestão de identidade e permissão (Identidade e acesso)IAMMicrosoft Entra ID (ex-Azure AD) + Azure RBACCloud IAMTimes/Projetos + API Tokens (modelo bem mais simples, sem RBAC granular por recurso)
Cofre de segredos/chavesKMS + Secrets ManagerAzure Key VaultCloud KMS + Secret Manager— (sem serviço gerenciado dedicado; usa-se Vault de terceiros ou variáveis de ambiente do App Platform)

Observabilidade

ConceitoAWSAzureGCPDigitalOcean
Métricas e logs centralizados (Observabilidade)CloudWatchAzure Monitor (+ Application Insights)Cloud Monitoring + Cloud Logging (ex-Stackdriver)Monitoring (métricas básicas de infra, sem APM completo)
Rastreamento distribuído (tracing)X-RayApplication Insights (parte do Azure Monitor)Cloud Trace— (integra-se com ferramenta de terceiros, ex.: Datadog, Honeycomb)

O padrão que emerge

Reparou no formato? Nas categorias “de commodity” — VM, object storage, Kubernetes, Postgres gerenciado — os quatro provedores têm equivalente direto, porque são conceitos que todo mundo precisa e o mercado já padronizou a expectativa. Nas categorias “de plataforma diferenciada” — mensageria gerenciada pesada, API Gateway completo, cofre de segredos dedicado — a DigitalOcean fica de fora, porque esses são produtos caros de manter e o público-alvo dela (startups, devs solo, times pequenos) raramente precisa deles no dia 1.

Isso não é DO “perdendo” para AWS — é DO escolhendo deliberadamente um catálogo mais enxuto para manter preço e simplicidade previsíveis. É uma decisão de produto, não uma limitação técnica escondida. E é exatamente esse tipo de trade-off que a próxima nota do galho examina de frente.

O que vem a seguir

Essa tabela resolve o problema de vocabulário — mas não resolve o problema de arquitetura. Saber que EKS e GKE são “o mesmo conceito” não significa que migrar workload de um pro outro é trivial: há APIs proprietárias, IAM amarrado a cada nuvem, serviços gerenciados sem equivalente (como você acabou de ver na fila e no API Gateway) que prendem sua aplicação num provedor mesmo que o Kubernetes por baixo seja “portável”. A próxima nota do galho encara esse tema de frente: lock-in é inevitável ou é escolha de arquitetura? E até que ponto o Kubernetes funciona de fato como camada de abstração entre nuvens.

Fontes