Josenaldo Matos
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Escreva em português: o gargalo da IA não é o idioma, é a sua expressividade
OPINIÃO
pt-br
15/03/2026
Josenaldo Matos

Escreva em português: o gargalo da IA não é o idioma, é a sua expressividade

Por que desenvolvedores brasileiros produzem instruções melhores para agentes de IA quando escrevem na língua em que pensam — e por que forçar inglês pode estar piorando seus resultados.

Eu passei anos escrevendo (ou tentando) tudo em inglês.

README em inglês. Commits em inglês. Comentários em inglês. Skills em inglês. AGENTS.md em inglês. Até anotação de post-it na minha mesa ficava em inglês. Eu queria ter o maior contato possível com a língua inglesa e então forçava a barra pra escrever tudo em inglês, mesmo quando isso me custava tempo, clareza e precisão.

A lógica era simples e parecia irrefutável: a área inteira da TI é baseada em inglês. As linguagens de programação, as bibliotecas, frameworks, documentação... Tudo está em inglês.

E agora, esse argumento ficou ainda mais forte com a IA, porque os modelos são treinados majoritariamente em inglês. Logo, escrever em inglês = melhor resultado!

Na minha cabeça, usar meu próprio idioma diretamente nos projetos era algo confuso e que introduziria ruído. E agora, na Era da IA, isso é ainda mais forte, certo?

Aí minha esposa me fez uma inocente pergunta que desarmou toda essa lógica com uma frase:

"Mas o gargalo agora é a capacidade de entendimento da IA ou a expressividade do operador da IA?"

E eu travei.

Porque ela estava certa.


A hipótese que ninguém testa

Vou mandar o papo reto:

Eu escrevendo em português + IA traduzindo internamente para inglês produz resultado melhor do que eu escrevendo em inglês ruim + IA sem precisar traduzir.

Por quê? Porque a tradução que a IA faz do meu português é bem melhor do que o meu inglês. Ou pior: do que a tradução que nós fazemos do português para o inglês, quando ainda não dominamos completamente o inglês.

Português é minha língua marerna. E a instrução que eu dou em português é mais precisa, mais detalhada e mais completa do que qualquer coisa que eu consiga articular em inglês — porque eu penso em português.

Parece óbvio quando escrito assim. Mas a indústria inteira opera na premissa contrária há anos.

O que a ciência diz (spoiler: a IA já pensa em inglês)

Não sou só eu e meu colega num papo de boteco digital. Tem pesquisa séria sobre isso.

Zhao et al. publicaram em 2024 um paper chamado "How do Large Language Models Handle Multilingualism?" (arXiv:2402.18815), apresentado no EMNLP. Eles descobriram algo que devia terminar com essa discussão de vez:

LLMs convertem inputs multilíngues para representações internas em inglês nas camadas intermediárias. Eles chamaram isso de MWork (Multilingual Workflow). Na prática: você escreve em português, o modelo traduz para inglês internamente, raciocina em inglês, e gera a resposta de volta em português.

Ou seja: forçar inglês na entrada é redundante. O modelo já faz essa conversão sozinho. E faz melhor do que você.

Outro estudo relevante: Qin et al. (2023), "Cross-lingual Prompting" (arXiv:2310.14799), também EMNLP. Eles mostraram que para línguas de alta representação — e português está nesse grupo, com seus ~250 milhões de falantes e presença massiva na web — a diferença de performance entre prompt no idioma nativo e prompt em inglês é mínima em modelos frontier. A diferença significativa aparece apenas em línguas de baixa representação, como birmanês ou zulu.

E tem mais: nenhum vendor — nem Anthropic, nem OpenAI, nem Google, nem GitHub — recomenda "escreva em inglês para melhores resultados" na documentação de 2025–2026. A Anthropic recomenda "add context to improve performance". O GitHub Copilot pede "natural language instructions in Markdown format". Linguagem natural. Não linguagem inglesa.

O argumento que me convenceu: DDD e Linguagem Ubíqua

A ciência sozinha já seria suficiente, mas o argumento que me fez mudar de posição na prática veio do Domain-Driven Design.

Eric Evans, lá em 2003, martelou o conceito de Ubiquitous Language: a linguagem deve ser compartilhada entre devs e especialistas de domínio. Martin Fowler reforça: "Domain experts should object to terms or structures that are awkward or inadequate to convey domain understanding."

Agora pensa comigo. Se o domínio do meu projeto é fiscal brasileiro, os conceitos são: nota fiscal, CNPJ, regime tributário, SEFAZ, boleto, DARF. Se eu traduzo para inglês — "tax invoice", "tax ID", "tax regime", "payment slip" — acontecem duas coisas:

  1. O especialista de domínio não reconhece os termos. O contador da empresa não sabe o que é "tax invoice". Ele sabe o que é nota fiscal. A linguagem deixa de ser ubíqua.

  2. Os devs criam traduções artificiais e inconsistentes. Um chama de TaxInvoice, outro de FiscalNote, outro de Invoice. Ninguém sabe se é a mesma coisa. A tradução vira ruído.

Quando os termos de domínio ficam em português na documentação, nos prompts e nas Skills, a IA gera código que respeita esses termos. A Linguagem Ubíqua flui do domínio para o código sem uma camada de tradução que ninguém pediu e que só atrapalha.

Ao gerar código para emissão de nota fiscal, use os campos:
razaoSocial, cnpj, regimeTributario.
Nunca traduza "nota fiscal" como "invoice" — no contexto
tributário brasileiro, os conceitos não são equivalentes.

A barreira que não existe mais

Antes de agentes de IA, tinha uma objeção prática legítima: ferramental. Linters, spell-checkers, geradores de documentação — tudo era anglófono. Escrever em português significava lutar contra a ferramenta.

Isso acabou.

Com modelos frontier, a IA lê, escreve, revisa e traduz português brasileiro com fluência total. Eu escrevi um artigo inteiro sobre Context Engineering em português, e a IA que me ajudou a pesquisar, revisar e editar não teve qualquer dificuldade com o idioma. Na verdade, as sugestões eram melhores porque o contexto era mais rico — eu estava escrevendo no idioma em que penso.

A última barreira prática para usar português em projetos brasileiros era o ferramental. A IA derrubou essa barreira.

Quando inglês ainda faz sentido

Eu não estou dizendo "abandone o inglês". Estou dizendo "pare de usá-lo onde ele te atrapalha".

Código continua em inglês. Variáveis, funções, classes, APIs — o ecossistema é anglófono, as bibliotecas esperam nomes em inglês, e misturar calcularImpostoDeRenda() com getTaxRate() é uma receita pra enlouquecer.

Documentação pública continua em inglês. Se o projeto é open-source, se vai ter adoção internacional, se a equipe é multinacional — inglês é a escolha correta para README, contribuição e docs de API.

Mas se o projeto é para uma empresa brasileira, com equipe brasileira, com stakeholders que falam português, com domínio em português — forçar inglês na documentação interna, nos prompts, nas Skills e no AGENTS.md é gastar energia cognitiva pra produzir instrução pior.

O padrão que funciona: Portunglês (híbrido pt+en)

Na prática, o padrão que funciona pra mim é o que todo dev brasileiro já faz naturalmente e que eu chamo carinhosamente de portunglês:

  • Texto em linguagem natural → português: documentação, prompts, instruções de agente, comentários de domínio, Skills, READMEs internos, identificadores(variáveis, funções, classes) de domínio, comunicação com stakeholders.
  • Código → inglês: identificadores(variáveis, funções, classes), nomes de arquivo, APIs, etc;

Não é uma regra nova. É reconhecer que a separação natural que você já faz — pensar em português, codar em inglês — é exatamente o padrão ótimo quando a IA está no loop.

O que eu mudei (e o que não mudei)

Eu reestruturei meus repositórios. Hoje, meus AGENTS.md, minhas Skills, minha documentação interna — tudo em português. Código continua em inglês. Commits são em inglês se for convenção do projeto ou conveniente. Se não, é em Portunglês mesmo.

E o resultado? Minhas instruções ficaram mais precisas. Os agentes erram menos. Eu gasto menos tempo reformulando prompts porque a primeira versão já sai com a especificidade que eu quero — porque eu não estou desperdiçando ciclos mentais traduzindo.

Sim, eu misturo português e inglês. E sim, isso é ok ("isso é ok" -> pegou a ironia???).

Minha preocupação, hoje, é maximizar a expressividade e a clareza da minha comunicação com a IA, e não forçar um idioma que não é o meu para tentar agradar um modelo que já entende português perfeitamente. Portanto, expressar conceitos usando mistura de idiomas, dentro desse contexto, deixou de ser uma ofensa para virar uma ferramenta.

A frase que fica

A questão nunca foi "a IA entende português?". Ela entende. E traduz internamente melhor do que você.

A questão é: você expressa melhor em qual língua?

Porque no fim, o gargalo não é a compreensão do modelo. É a sua expressividade. E expressividade não se otimiza trocando de idioma — se otimiza usando o idioma em que você pensa.

Eu escrevo em portunglês e a IA que lute!

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