
A IA não organizou minha vida. Ela me ajudou a arrumar a casa
Não criei um workflow cyberpunk que lê meus e-mails por mim. Usei IA para destravar trabalho real: refatoração, testes, documentação e projetos que eu vinha adiando havia tempo demais.Eu concordo plenamente com um post recente do Raphael Oliveira.
A provocação dele é boa porque acerta um alvo real: tem muita gente transformando setup em troféu. Workflow virou deliverable. Automação virou performance. O sujeito monta uma esteira futurista que lê e-mail, cruza agenda, classifica prioridades, acende LED, toca saxofone e faz café, mas continua sem fazer o que precisava fazer.
Eu ri quando li aquilo porque doeu. Não pelo lado do "montei um workflow de agentes que opera Wall Street dentro do Notion", mas por outro motivo: eu sou exatamente do tipo que acumula projeto pela metade.
Eu sempre tive essa doença do "quando eu tiver tempo eu termino".
Só que a verdade é simples e humilhante: a gente nunca tem tempo.
Bem, resolvi arrancar tempo na unha.
Cansei de usar falta de tempo como desculpa elegante para projeto largado pela metade.
E é aqui que a IA entrou, pelo menos pra mim. Não como brinquedo de produtividade. Não como cosplay de CTO do futuro. Não como um workflow perfeito.
Ela entrou como alavanca.
Eu ainda não tenho o setup definitivo. Ainda estou aprendendo. Ainda tem improviso, atrito, retrabalho e muita coisa tosca no processo. Mas agora existe uma diferença objetiva entre "um dia eu faço" e "isso saiu do papel".
Nos últimos três meses, saiu bastante coisa do papel.
No trabalho
No lado profissional, o ganho não foi "olha como meu fluxo está lindo". Foi entrega de verdade.
- Reestruturei dois módulos importantes da aplicação ao mesmo tempo em que seguimos entregando funcionalidade nova. O resultado foi melhora de UX, melhora de arquitetura e redução de bugs.
- Colocamos IA para automatizar uma etapa manual extremamente chata do produto: a leitura de documentos em PDF que antes gerava muita fricção para o usuário.
- Finalmente consegui colocar de pé uma suíte de testes séria para o projeto principal, cobrindo backend e os dois frontends. Tem teste unitário, de integração e E2E. Já passamos da casa dos dois mil testes, e isso começou a impactar de forma bem concreta a confiança e a velocidade de entrega.
- Documentei os processos importantes da aplicação.
- Estruturei a arquitetura de Context Engineering que venho usando no trabalho e que expliquei em outro artigo aqui no blog.
- Hoje, feature nova sai com um pacote mais completo: documentação, testes e contrato de API quando faz sentido.
- Também estou modernizando um site legado de cliente, atualizando dependências e preparando o terreno para evoluções futuras.
Nada disso é sexy. E isso é ótimo.
É trabalho de verdade. É o tipo de coisa que melhora sistema, reduz atrito, diminui retrabalho e deixa o time respirar melhor depois.
Nos projetos paralelos
Se no trabalho a IA me ajudou a ganhar tração, nos side projects ela me ajudou a parar de deixar tudo em modo "rascunho eterno".
https://josenaldo.com.br
No meu site pessoal, finalmente arrumei a própria casa.
Atualizei dependências, completei conteúdo de todas as seções, revisei a exibição das skills, atualizei o currículo e deixei o download organizado. E, talvez o mais importante: o blog finalmente ganhou vida do jeito que eu queria.
Agora ele está ficando mais técnico, mais útil para mim e mais alinhado com a ideia de servir como minha terceira memória: um lugar onde eu organizo raciocínio e deixo registrado o que vou querer consultar de novo no futuro.
Também coloquei no ar o meu banco de dados de carreira, meu brag document. Não está perfeito. Mas existe. E existir, nesse caso, vale muito mais do que ficar idealizando a versão final. Rastreei meus projetos, meus cursos, minhas experiências, minhas habilidades e minhas conquistas. E isso já é um recurso valioso para mim, mesmo que ainda esteja longe do formato ideal.
https://livropog.com.br
O Livro POG finalmente saiu do limbo do "qualquer hora eu termino".
Fechei o primeiro rascunho inteiro, corrigi o site e migrei o projeto para uma versão mais nova do Next.js. No processo, saí do Pages Router para o App Router. Passei a ter EPUB e PDF, e ainda mexi em AEO e SEO. Não é o produto final dos sonhos, mas deixou de ser promessa vaga e virou coisa concreta.
Finalmente temos um Tomo que nos guiará a um futuro brilhante, onde a Gambiarra será reconhecida como a arte que é, e o POG será a ferramenta de expressão máxima do dev brasileiro.
https://pogometro.com.br
Se o livro sobre a POG já era interessante, agora temos uma aplicação para certificar a POG existente em seu projeto! O
Pogômetro é um sistema de gamificação para medir o nível de POG de um projeto, baseado em princípios, técnicas e design patterns de gambi. Ele é uma aplicação web simples, onde você pode colocar o endereço do seu projeto no GitHub, e ele vai analisar o código, extrair métricas relevantes, comparar com um banco de dados de projetos e padrões de POG, e te dar um diagnóstico do nível de POG do seu projeto.
Ele tamnbém tem um mural de projetos, um ranking de POG, níveis de POG, pontuação e validação baseada em princípios, técnicas e gambi design patterns. Ainda quero evoluir bastante, mas já não é mais só uma ideia engraçada anotada em algum lugar.
O site da minha esposa ou um framework misterioso?
Talvez o projeto que mais me anima hoje seja o site da minha esposa, porque ele está começando a virar mais do que "um site".
Aproveitando tudo o que aprendi com sites de clientes, com meus próprios sites e com a estrutura que venho refinando nesse ecossistema, comecei a transformar o projeto numa base reaproveitável.
Migramos o código para TypeScript.
O site agora tem i18n.
Separamos conteúdo, configurações, coleções, strings, tema e imagens numa estrutura única, para facilitar a instância para outros usuários.
E agora estou integrando isso com o Sveltia CMS, para que exista um painel administrativo mesmo em cima de um site estático.
A ambição aqui é interessante: transformar esse projeto numa espécie de CMS headless de baixo custo, com painel administrativo, que possa ser hospedado em GitHub Pages ou GitHub + Vercel, para que uma pessoa física ou uma pequena ONG consiga ter um site rápido, simples e com custo de manutenção próximo de zero.
Isso já é bem mais interessante do que deixar mais um repositório mofando em silêncio.
O ponto não é o workflow. É o que ele destrava
Então sim: eu concordo com o Raphael.
Se a IA estiver servindo só para você montar um teatrinho de produtividade, ela virou hobby caro.
Mas eu também acho que existe um outro lado dessa conversa.
Para quem, como eu, acumulava coisa inacabada e sempre se escondia atrás do "quando eu tiver tempo", a IA pode ser justamente a ferramenta que reduz atrito o bastante para você finalmente fazer as coisas.
Ela não fez o trabalho por mim. Ela não me deu disciplina por osmose. Ela não instalou foco diretamente no meu córtex pré-frontal.
O que ela fez foi diminuir o peso de começar, de destravar, de revisar, de organizar contexto, de manter consistência, de pesquisar mais rápido, de documentar melhor, de fechar lacuna que antes eu empurrava com a barriga.
E porra, mano, isso é do caralho!
Não construí a Skynet. Arrumei a casa
Eu não criei um SaaS revolucionário. Não inventei uma nova IA para elevar a humanidade a outro patamar. Não montei um centro de comando que controla minha agenda enquanto eu tomo café olhando para um dashboard neon.
O que eu fiz foi trabalho mundano.
Arrumei a própria casa. Tirei projeto do limbo. Documentei sistema. Escrevi teste. Refatorei módulo. Publiquei conteúdo. Transformei promessa em artefato.
E, honestamente, estou bem satisfeito de olhar para trás e ver vários cômodos mais limpos, mais organizados e mais habitáveis do que estavam três meses atrás.
Ainda não tenho o workflow perfeito. Mas agora tenho resultado palpável.
E isso, para mim, já é motivo suficiente para continuar aprendendo, refinando e usando mais IA.
Cráudio, Gepeto, Carona e Germano, valeu pela ajuda! Vou dar um bombom sabor chocolate pra cada um de vocês no fim do ano!