TL;DR

Desenvolvimento de software sob encomenda (CNAE 6201-5/01) não está na lista de atividades permitidas para MEI — na prática, quase todo fractional engineer brasileiro precisa abrir uma Microempresa (ME) ou Sociedade Limitada Unipessoal (SLU) tributada pelo Simples Nacional desde o início, não MEI. O teto do MEI (R 4,8 milhões/ano e, com o CNAE certo, se qualifica pro Fator R (Anexo III) — o mecanismo que reduz a alíquota efetiva de forma significativa. Abrir a empresa certa desde o início evita duas dores: regularização retroativa cara e perda de tempo reabrindo CNPJ depois.

O problema de começar pelo caminho errado

Um desenvolvedor decide virar fractional e, seguindo o conselho mais comum que circula (“comece pelo MEI, é mais simples”), abre um MEI para prestar serviço de desenvolvimento de software. Meses depois, ao tentar emitir nota fiscal de exportação de serviço pra um cliente americano, descobre que o CNAE de desenvolvimento sob encomenda não está entre as atividades permitidas pro MEI — a nota simplesmente não pode ser emitida daquela forma, ou foi emitida de forma irregular. Regularizar isso depois do fato — trocar de regime, ajustar CNAE, lidar com possíveis notas já emitidas incorretamente — custa mais tempo e dinheiro do que teria custado abrir certo desde o início.

Como funciona o mecanismo da escolha de regime

As opções reais: ME/SLU no Simples Nacional

Pra desenvolvimento de software, os CNAEs relevantes são:

  • 6201-5/01 — Desenvolvimento de programas de computador sob encomenda
  • 6202-3/00 — Desenvolvimento e licenciamento de programas de computador customizáveis

O tipo societário mais comum pra quem atua sozinho é a Sociedade Limitada Unipessoal (SLU) — permite um único sócio, sem precisar de um segundo nome só pra existir no papel (como a antiga EIRELI exigia). A empresa se enquadra como Microempresa (ME) enquanto o faturamento anual ficar até R 4,8 milhões permanecendo no Simples Nacional, mudando de faixa).

RegimeFaturamento máximo/anoCNAE de dev permitido?Adequado pra fractional?
MEIR$ 81.000Não (via de regra)Não — CNAE não permitido e teto baixo
ME/SLU — Simples NacionalAté R$ 4,8 milhõesSimSim — regime padrão pra devs PJ
Lucro PresumidoAcima de R$ 4,8 milhões (ou por escolha estratégica)SimRaro nessa fase — só relevante em faturamento muito alto

O Fator R entra na conta desde a abertura

O processo de abertura, em linhas gerais

  1. Escolher o tipo societário (SLU é o padrão pra sócio único) e o CNAE correto de desenvolvimento de software.
  2. Registro na Junta Comercial do estado, gerando o CNPJ.
  3. Inscrição municipal (necessária pra emitir nota fiscal de serviço — NFS-e).
  4. Opção pelo Simples Nacional, feita junto à Receita Federal, geralmente no mesmo processo de abertura ou logo em seguida.
  5. Abertura de conta PJ em banco ou fintech que aceite recebimento internacional (ver 12 - Organização financeira e câmbio).

Na prática quase ninguém faz esse processo sozinho — um contador especializado em PJ de tecnologia conduz a abertura e já orienta CNAE, tipo societário e enquadramento tributário desde o primeiro passo.

Em uma frase: para desenvolvimento de software, o caminho padrão é abrir direto como ME/SLU no Simples Nacional com o CNAE de desenvolvimento sob encomenda — o MEI, apesar de mais simples no discurso popular, geralmente não é sequer uma opção legal disponível.

Casos práticos

Cenário 1: abertura planejada desde o início

Um engenheiro decidido a virar fractional consulta um contador antes de fechar o primeiro cliente. O contador recomenda SLU com CNAE 6201-5/01, orienta a definir o pró-labore inicial já mirando o Fator R (Anexo III), e a empresa nasce pronta pra emitir nota fiscal de exportação assim que o primeiro contrato internacional for assinado — sem retrabalho.

Cenário 2: correção de rumo depois do erro

Um fractional que abriu MEI por conta própria, sem orientação contábil, descobre o problema de enquadramento ao tentar emitir a primeira nota fiscal de exportação. Ele precisa desenquadrar o MEI, abrir uma nova empresa (SLU) com o CNAE correto, e perde algumas semanas nesse processo — tempo em que o primeiro cliente já esperava a nota fiscal pra liberar o pagamento. O caso ilustra por que vale consultar um contador antes de abrir, não depois de travar num contrato real.

Armadilhas comuns

Confiar em "todo mundo abre MEI primeiro" sem checar o CNAE

O que acontece: o profissional segue o conselho genérico mais popular (abrir MEI por ser “mais simples e barato”) sem verificar se a atividade específica de desenvolvimento de software está na lista permitida. Por quê: o conselho de MEI é correto pra muitas atividades, mas desenvolvimento sob encomenda historicamente não está entre elas — informação que muda por atividade, não é regra geral. Como evitar: verificar o CNAE específico da atividade (ou consultar um contador) antes de abrir qualquer CNPJ, em vez de seguir recomendação genérica de terceiros.

Escolher CNAE genérico demais

O que acontece: a empresa é aberta com um CNAE de “consultoria em TI” genérico, sem refletir com precisão que o serviço prestado é desenvolvimento de software. Por quê: CNAE incorreto pode gerar problema na emissão de nota fiscal de exportação (que exige alinhamento entre atividade declarada e serviço prestado) e complicar o enquadramento no Fator R. Como evitar: usar os CNAEs específicos de desenvolvimento (6201-5/01 ou 6202-3/00) em vez de CNAEs de consultoria genérica, mesmo que pareçam mais flexíveis à primeira vista.

Abrir empresa sem projetar o pró-labore desde o início

O que acontece: a empresa é aberta sem plano de pró-labore, e só meses depois o profissional descobre o Fator R e percebe que está pagando o Anexo V mais caro. Por quê: o Fator R é calculado numa janela móvel de 12 meses — quanto mais cedo o pró-labore correto começa, mais rápido a empresa cruza o gatilho dos 28% e migra pro Anexo III. Como evitar: definir o pró-labore já no primeiro mês de operação com o cálculo do Fator R em mente, em vez de tratar isso como ajuste posterior.

Como explicar em inglês

Custom software development typically isn’t an eligible activity for Brazil’s simplified MEI structure — most Brazilian fractional engineers need to incorporate as a Sociedade Limitada Unipessoal (SLU), a single-member limited company, taxed under the Simples Nacional regime, from day one.

PTEN
CNPJCompany tax ID (Brazil)
Sociedade Limitada Unipessoal (SLU)Single-member limited liability company
Simples NacionalSimplified national tax regime
CNAEEconomic activity classification code
Pró-laboreOwner’s salary / director’s compensation

O que vem a seguir

Com a empresa aberta e o CNAE correto, o próximo passo é entender como esse CNPJ emite nota fiscal pra um cliente no exterior e quais isenções fiscais específicas de exportação de serviço se aplicam.

Fontes